O cravo que nunca
existiu apaixona-se pela rosa que nunca nascera.
Por um motivo qualquer, Sebastião vai à casa de Carla.
Após a chegada, bate-se à porta e uns profundos e,
aparentemente intocáveis, olhos azuis o atende.
-Por favor, senhor, entre – disse a moça despindo um
sorriso tímido.
O rapaz entra meio desconfortado, atravessa sua varanda e
espreita obliquamente os detalhes da casa da menina, enquanto a esperava convidá-lo
à sua sala.
-Tens uma casa muito bonita senhora – embora, evidente,
que não era bem a casa que lhe gostaria ter elogiado, mas valeu uma manifestação qualquer.
Carla agradece e faz uma reverência amena enquanto se
desviava a algum cômodo. Logo volta com uma bandeja com pires sob xícaras de
café, reluzindo uma fragrância apetitosa e remetendo lembranças familiares à
Sebastião.
-Obrigado senhora – responde Sebastião, furtando-lhe os
olhares às abóbadas da sala da moça.
-Não me chame de senhora, por favor. Chame-me por Carla...
Ouvir aquilo, sendo mirado por aqueles profundos, fascinou-o.
Sebastião a observa levantar e se dirigir à saída para o quintal de trás. Quando ela alcança a porta primeiro, um vento ligeiro assalta seus cabelos, cujo preto, demasiadamente brilhoso, exalta Sebastião. Como se estivessem lhe dizendo: “venha, atrás de mim; procure por mim”.
Sebastião a observa levantar e se dirigir à saída para o quintal de trás. Quando ela alcança a porta primeiro, um vento ligeiro assalta seus cabelos, cujo preto, demasiadamente brilhoso, exalta Sebastião. Como se estivessem lhe dizendo: “venha, atrás de mim; procure por mim”.
Sebastião se levanta. Em seus olhos não se achavam o
chão, apenas imagináveis estrelas do cabelo da moça e a refração das luzes das
janelas que estavam meio fechadas.
-Eu vou (...) – pensou ele.
Carla desaparece da porta como a vida verde escura da dormideira
quando tocada. Más línguas, se vissem, talvez diriam que ela exalava ferormônio.
Sebastião como um felino curioso exaltado, pôs-se à
porta. Podia-se até ouvir o estalar dos tamancos de madeira que orquestravam aquele
chão.
Ao chegar àquela e depois que suas retinas se acostumaram
à luz do gigante vermelho, Sebastião, perplexo, com as sobrancelhas conjuntamente
com os cabelos bagunçados, deparou-se com um imenso, quase infinito, Jardim de
Cravos, habilmente desenhado a mãos de um paisagista dedicado.
Com o susto, Sebastião enxergava muito comprida a escada
que levava ao jardim. Mas que não tinha mais que cinco ou seis degraus curtos.
-Carla? – primeiramente baixinho.
-Carla???
-(...)
Sebastião não compreende o por quê do sumiço. Pergunta-se
o que estaria fazendo ali. Não havia motivo algum. Viu-se como uma borboleta
quando não acha o néctar da flor.
Alguns momentos a mais, e Sebastião adentra aos primeiros
metros do jardim. Não sabe porquê nem pelo o quê. Mas fez.
Uma mistura de confusão e fascinação pipocava seus
sentidos. Os cravos pareciam conversar com ele, como uma medusa faz com seus
marujos.
Ele continua a caminhar. Entra. Vira. Volta. Atravessa
uma muralha de cravos. Abre uma frecha em outra. Tapa os olhos, às vezes,
quando perpendicular ao gigante ia. Até em uma curva, não diferente das outras,
estabanadamente, corta-se em um espinho.
Gotas daquele denso vermelho-fogo respigam no gramado, ao
chão de grama e barro argiloso.
Sebastião cai em si. Tenta fazer, semelhante a um
torniquete, uma compressa sobre o corte com um pedaço de pano que acabara de
rasgar de sua roupa.
Ele não sente arder, nem dor, muito menos acha o maldito
espinho que o cortara. Começa a reparar, lentamente, à sua volta. Não vê nada
além da melanina verde mística das folhas dos cravos flor-marrom-madeira.
Ao copo que o cravo fazia com suas flores, até se podia
ver uma perfeição geométrica.
Sebastião então se vê perdido... altos muros erguidos de
cravo, inúmeros caminhos: Curvados, retos, oblíquos. E nada de começo ou fim.
É quando Sebastião se senta, naquele barro argiloso
mesmo, e repara melhor seu corte, possivelmente estancado agora.
Contudo, não sabe se fica mais espantado em como foi parar ali ou
em como a arranhado sumiu.
-Como? – Indaga-se.
De repente os Profundos emergem dentre as folhas marrom-madeira,
manifestando um contraste teatral entre os azuis e os marrons. Era Carla. Não menos
linda. Não mais ausente.
Carla toca-lhe no destro, o qual foi ferido, e desfaz os
nós de pano mal feitos. Levanta-o. Compartilha-o os lábios. Aponta para uma
direção qualquer. Depois some novamente.
Sebastião sorria não sorrindo.
-É um sonho, não pode ser.
Tenta dar por si, porém, não vê nada de real. Pensa não ser
nada concreto. Nada físico. Nada palpável.
Acha que só porque passou a vida, irrefutável que pensou
ter, simétrico ao comum, poderia duvidar.
Seu paradigma, agora, estava sem alicerces.
O coração batia arrebatadamente. E um sentimento comum de
pessoas comuns o surpreendeu...
-Você não está sonhando Sebastião – ratifica Carla, interrompendo-o em sua retórica -; mas
se estamos nele, então, ora, aproveite-o.
-Não é todo dia que o mesmo cravo que te fere é o mesmo
que te cura, é o que me apresenta, é o que te faz me desejar, ou, tão somente,
é o que te prova que são válidas todas as formas de amor...
-Até mesmo aquelas em que a gente só enxerga em cor
flor-marrom-madeira, em nossos sonhos.
Sebastião apaixonou-se pela primeira vez.

Bonito conto. Gostei.
ResponderExcluirMuito bom!! Além disso, curti muito a estrutura de teu blog...bonito!
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