domingo, 8 de julho de 2012


O cravo que nunca existiu apaixona-se pela rosa que nunca nascera.

Por um motivo qualquer, Sebastião vai à casa de Carla.
Após a chegada, bate-se à porta e uns profundos e, aparentemente intocáveis, olhos azuis o atende.
-Por favor, senhor, entre – disse a moça despindo um sorriso tímido.
O rapaz entra meio desconfortado, atravessa sua varanda e espreita obliquamente os detalhes da casa da menina, enquanto a esperava convidá-lo à sua sala.
-Tens uma casa muito bonita senhora – embora, evidente, que não era bem a casa que lhe gostaria ter elogiado, mas valeu uma manifestação qualquer.
Carla agradece e faz uma reverência amena enquanto se desviava a algum cômodo. Logo volta com uma bandeja com pires sob xícaras de café, reluzindo uma fragrância apetitosa e remetendo lembranças familiares à Sebastião.
-Obrigado senhora – responde Sebastião, furtando-lhe os olhares às abóbadas da sala da moça.
-Não me chame de senhora, por favor. Chame-me por Carla...
Ouvir aquilo, sendo mirado por aqueles profundos, fascinou-o.
Sebastião a observa levantar e se dirigir à saída para o quintal de trás. Quando ela alcança a porta primeiro, um vento ligeiro assalta seus cabelos, cujo preto, demasiadamente brilhoso, exalta Sebastião. Como se estivessem lhe dizendo: “venha, atrás de mim; procure por mim”.
Sebastião se levanta. Em seus olhos não se achavam o chão, apenas imagináveis estrelas do cabelo da moça e a refração das luzes das janelas que estavam meio fechadas.
-Eu vou (...) – pensou ele.
Carla desaparece da porta como a vida verde escura da dormideira quando tocada. Más línguas, se vissem, talvez diriam que ela exalava ferormônio.
Sebastião como um felino curioso exaltado, pôs-se à porta. Podia-se até ouvir o estalar dos tamancos de madeira que orquestravam aquele chão.
Ao chegar àquela e depois que suas retinas se acostumaram à luz do gigante vermelho, Sebastião, perplexo, com as sobrancelhas conjuntamente com os cabelos bagunçados, deparou-se com um imenso, quase infinito, Jardim de Cravos, habilmente desenhado a mãos de um paisagista dedicado.
Com o susto, Sebastião enxergava muito comprida a escada que levava ao jardim. Mas que não tinha mais que cinco ou seis degraus curtos.
-Carla? – primeiramente baixinho.
-Carla???
-(...)
Sebastião não compreende o por quê do sumiço. Pergunta-se o que estaria fazendo ali. Não havia motivo algum. Viu-se como uma borboleta quando não acha o néctar da flor.
Alguns momentos a mais, e Sebastião adentra aos primeiros metros do jardim. Não sabe porquê nem pelo o quê. Mas fez.
Uma mistura de confusão e fascinação pipocava seus sentidos. Os cravos pareciam conversar com ele, como uma medusa faz com seus marujos.
Ele continua a caminhar. Entra. Vira. Volta. Atravessa uma muralha de cravos. Abre uma frecha em outra. Tapa os olhos, às vezes, quando perpendicular ao gigante ia. Até em uma curva, não diferente das outras, estabanadamente, corta-se em um espinho.
Gotas daquele denso vermelho-fogo respigam no gramado, ao chão de grama e barro argiloso.
Sebastião cai em si. Tenta fazer, semelhante a um torniquete, uma compressa sobre o corte com um pedaço de pano que acabara de rasgar de sua roupa.
Ele não sente arder, nem dor, muito menos acha o maldito espinho que o cortara. Começa a reparar, lentamente, à sua volta. Não vê nada além da melanina verde mística das folhas dos cravos flor-marrom-madeira.
Ao copo que o cravo fazia com suas flores, até se podia ver uma perfeição geométrica.
Sebastião então se vê perdido... altos muros erguidos de cravo, inúmeros caminhos: Curvados, retos, oblíquos. E nada de começo ou fim.
É quando Sebastião se senta, naquele barro argiloso mesmo, e repara melhor seu corte, possivelmente estancado agora.
Contudo, não sabe se fica mais espantado em como foi parar ali ou em como a arranhado sumiu.
-Como? – Indaga-se.
De repente os Profundos emergem dentre as folhas marrom-madeira, manifestando um contraste teatral entre os azuis e os marrons. Era Carla. Não menos linda. Não mais ausente.
Carla toca-lhe no destro, o qual foi ferido, e desfaz os nós de pano mal feitos. Levanta-o. Compartilha-o os lábios. Aponta para uma direção qualquer. Depois some novamente.
Sebastião sorria não sorrindo.
-É um sonho, não pode ser.
Tenta dar por si, porém, não vê nada de real. Pensa não ser nada concreto. Nada físico. Nada palpável.
Acha que só porque passou a vida, irrefutável que pensou ter, simétrico ao comum, poderia duvidar.
Seu paradigma, agora, estava sem alicerces.
O coração batia arrebatadamente. E um sentimento comum de pessoas comuns o surpreendeu...
-Você não está sonhando Sebastião – ratifica Carla, interrompendo-o em sua retórica -; mas se estamos nele, então, ora, aproveite-o.
-Não é todo dia que o mesmo cravo que te fere é o mesmo que te cura, é o que me apresenta, é o que te faz me desejar, ou, tão somente, é o que te prova que são válidas todas as formas de amor...
-Até mesmo aquelas em que a gente só enxerga em cor flor-marrom-madeira, em nossos sonhos.
Sebastião apaixonou-se pela primeira vez.

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